Por vezes esquecemo-nos da simplicidade. Uma das melhores memórias de infância que tenho é da minha avó pelas 5h da manhã a partir a lenha para o forno, o crepitar dentro dele, os tons negros e alaranjados, a bosta a tapar a porta do forno de pedra, os sons ocos das suas mãos na masseira a fazer a massa para o pão, os cheiros primários e quentes da confecção do pão, da broa e folares, o sinal de Cruz e a reza, a matança do porco que também era sinal de reunião de toda a família, o tecto da cozinha cheio de enchidos (maioritariamente para distribuir pelos filhos) e a lareira sempre acesa, o fumo que impregnava a minha roupa, a minha pele e o meu cabelo, o meu avô sempre vigilante e com a malga de vinho e figos secos à sua frente à espera do pão quente…

São estes os momentos que nunca quero esquecer, a vida dos simples. Aprendi a degustar as coisas simples com a minha avó. E se há coisa que me dá um enorme prazer é um pão, uma broa ou um folar bem feito, quente ou frio o que importa é ser bem confeccionado. O chouriço de sangue, carne ou cebola aquecidos em aguardente, as rodelas de salpicão (eu escolhia sempre aquelas que tivessem mais camada branca da gordura, ainda hoje faço isso), o presunto todo descarnado de forma desengonçada, o vinho servido em malgas…a satisfação que todo aquele ritual me dava, tinha o mundo aos meus pés.

Pois bem, liguei ao meu amigo Miguel Viana de Valpaços para me arranjar fumeiro do bom e vinho dali da zona, coisa simples e sem muitas merdas. O homem percebeu-me muito bem e no dia seguinte ja cá estava a encomenda. Disse logo para a minha mulher: “hoje vai haver festa”.

E houve…um Folar cheio de carne fumada e com a massa fofa, chouriços com aquela gordura a escorrer na boca e a impregnar a broa, as rodelas de salpicão como eu gosto com aqueles traços de gordura branca, um vinho tinto e branco da “terra” – Maria Gins grande reserva tinto e o Valpaço-Lo-Velho branco -, vinho simples, honesto e muito bem feito, vinhos que nos transportam no tempo e revelam toda a simplicidade humana. Senti-me novamente um menino a olhar para a minha avó, sentado à mesa a comer pão e enchidos, a cheirar e bebericar o vinho, por incrível que pareça a casa ficou a cheirar a fumeiro e a minha roupa também. No fim…apenas uma lágrima de felicidade e a esperança de viver mais vezes estes dias.

Ricardo Soares

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