E este vinho (re)lembra-me uma pequena história real: um acidente de carro com três mortos, um tetraplégico e eu neste momento inteiro a escrever. Ainda hoje os sinto…

Moral da história: não deixes para amanhã o que podes fazer hoje.

Por vários motivos, e sem saber porquê, adiei a abertura deste vinho. Adiei adiei adiei até ao dia em que o produtor do Tirado a Ferros, Pedro Pimentel, me desafiou a abrir e a não perder tempo. Ensinou-me que o verdadeiro tempo livre não é sinónimo de repouso mas sim a liberdade de fazermos o que queremos – por exemplo, abrir este vinho – e não nos restringirmos ao ócio.

A impotência paralisava as minhas mãos perante o saca rolhas, a angústia útil de beber um dos melhores vinhos da minha vida. Repito: um dos melhores vinhos da minha vida.
Uma ode à vida.

Este Tirado a Ferros é o maior serviço que o Pedro Pimentel, pela sua arte e existência, proporciona aos seus antepassados e ao vinho português – uma dádiva e uma certeza.

Neste vinho estão várias gerações de mãos dadas. Nele se sente a simplicidade rústica, as mãos calejadas, a pele tostada do sol devido a uma vida de labuta, as faces gretadas e no entanto tudo muito gentil, aconchegante, acolhedor e futurista.

Como dizia Agustina Bessa Luís: “as coisas simples são indissolúveis. Não havendo nelas contradição, a tendência é para serem duráveis.”

Infelizmente a Comissão Vitivinícola Regional do Dão não pensa assim…talvez ainda bem porque este é autêntico Vinho de Mesa a homenagear os Simples.

Ricardo Soares

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