Se me perguntarem neste momento com qual caractere do teclado me identifico mais respondo que é o #

Significa: Preso; amordaçado; aquele que se encolhe como um cão; agrilhoado; censurado; aquele que se cala; lambe botas; aquele que não confia em si próprio; aquele que deve; aquele que não tem liberdade de escolha; aquele que não se assume; vive com constante medo de represálias, etc etc etc.

Digo isso não porque o sinta mas pelo que a maioria sente, pelo que presencio e pelo que vou lendo.

Quando não falamos de marcas reconhecidas no mercado há sempre pouca vontade de mostrar e afirmar as escolhas. Ao passarmos os olhos pelas revistas, prateleiras, blogs, grupos de Facebook e Instagram, grupos de provas, etc parece que a “carta” de vinhos é sempre a mesma. Parece que só existem aqueles vinhos e o resto é zurrapa. A censura colectiva, aliada ao (ou fruto do) marketing, determina as escolhas e caminhos a seguir.

Nos tempos de hoje qualquer bebedor escreve críticas. Até o mais anónimo dos bebedores pode escrever um livro ou criar e editar uma revista. São aqueles a quem, faço eu o paralelismo, Ortega y Gasset diagnostica como a “rebelião das massas”.

O autor esboça no aparecimento destas massas em espaços que estavam antes reservados às elites, ou pelo menos a grupos com uma certa exigência – e neste caso vai desde as provas aos eventos, das revistas à rua. O que verificamos hoje é que essa “rebelião das massas” tem alastrado e as redes sociais potenciam isso. Tendo aspetos positivos até porque somos seres livres e pensantes, também vieram permitir que qualquer um possa escrever e publicar, difundir a sua opinião mesmo que esta não tenha nenhum fundamento.
Essa rebelião deve assustar”quem sabe e percebe do assunto”. E talvez por isso não conseguem muitas vezes confrontar-se com o facto de a opinião dos bebedores assumir o mesmo estatuto de opiniões especializadas ou até críticas, e em termos públicos surgirem niveladas.
Atrevo-me a dizer que qualquer crítico, enólogo, produtor, etc se inibe de ter uma opinião pública porque receia que surja desalinhada da corrente mainstream, sujeitando-se a que haja um fenómeno viral em que o desanquem à pancada.

Claro que também há outros factores, que um dia poderei “filosofar”, por exemplo:
– de pressões por parte de “seres” superiores para quem estabelece a crítica;
– de críticas por interesse.

Por hoje fico-me por aqui que isto de “pensar” também cansa. Não sem antes fazer uma pergunta e na qual não irei pensar na resposta: – Farei parte da rebelião das massas?

Ricardo Soares

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